Eu tenho meu grau de sensibilidade, então, depois que a Dona
Vilma saiu do hospital eu ia visitá-la com frequência em sua casa – já que ela
se recusava em ficar no apartamento do Herry, reclamava do barulho do centro da
cidade – e isso da a ela a oportunidade de aproveitar mais seus dias com o
bisneto. Ela mora agora em um lugar mais tranquilo de Bridgeport, em uma casa
confortável, do lado rico da cidade.
Desta vez o Henry estava do lado de fora para nos receber.
- Atrasada Jully
- Não marquei hora, disse lá pelas duas e quinze, e não deve
ser duas e meio ainda....
- Tudo bem Jully, só estava brincando, a vovó está na sala
esperando por vocês, fique a vontade.
Dei duas batidinhas na porta e entrei, ela estava mesmo na
sala com seu livro de receitas na mão. Não era difícil de notar como a idade
estava caindo sobre ela. Além das rugas, os seus cabelos mais brancos e sua
postura ainda mais curvada denunciavam de que ela estava com sua saúde um pouco
debilitada.
- Boa tarde Dona Vilma. – Anunciei novamente a minha chegada
com o tom um pouco acima do normal, para que me escutasse.
- Sente-se aqui minha filha – ela falou docemente – Quem sou
eu para desobedecer depois do que o Henry disse? – e esse menino? Parece com
vergonha da vovó, deveria deixar ele ainda mais aqui comigo Julia.
Não é desconfiando da capacidade do passado dela, mas não
acho que deixar o Guto aqui sozinho com ela atualmente seja uma boa ideia, ela
não está em boas condições nem de se cuidar sozinha, mas evitei, acredito eu
que com sabedoria, de fazer tal comentário.
- Um dia dona Vilma, quando o Henry puder ajuda-la com ele
pode ter certeza que ele ficará aqui com a senhora.
Ela levantou-se e eu educadamente fiz o mesmo, pegou o
Gustavo com certa dificuldade e o levou para o andar de cima da casa.
- Olha o que a vovó mandou fazer para você querido. – No andar superior ela (provavelmente com a
ajuda do Henry) mobiliou um quarto só para ele.
– Aquele baú de brinquedos ali era do seu pai, tem muita coisa ali
dentro, vai lá ver.
- Ficou lindo dona Vilma, agora ele realmente tem um lugar
para ele quando vier passar a noite aqui.
- Que pode ser hoje, não pode? Ando tão sozinha, você
poderia passar a noite aqui comigo... O Henry vive em seus plantões no
hospital... A voz dela soou tão triste, não consegui dizer não.
Deixamos o Gustavo brincando ali e fomos para o corredor,
ela apontou dois outros quartos.
- Você pode ficar ali naquele quarto que fica vazio e este
aqui de frente é o do Henry quando ele consegue um tempo no hospital e vem
ficar aqui comigo. – Vou preparar um chá.
Fui ver o quarto, até que é aconchegante, e quando ia sair de lá senti alguém
me abraçar por trás.
- Ela conseguiu te dobrar, né? Essa velhota está ficando
esperta – Ah que sensação é essa? Um arrepio subiu pela minha coluna quando
senti sua respiração perto da minha orelha.
Desviei, mas ele me prendeu contra a parede, parecia estar
se divertindo, ficou claro meu desconforto com a situação, acho que ele conseguia
ouvir meu coração de tão forte que batia, ou com sua visão de médico notou como
a veia do meu pescoço simplesmente tremia de tão agitada que eu estava.
- Quer que eu te leve para buscar roupas ou alguma coisa que está faltando?
- Quer que eu te leve para buscar roupas ou alguma coisa que está faltando?
- Eu posso ir sozinha Bebê, dirijo a mais tempo que você
caso não se lembre. Fica com sua avó e o Gustavo que eu já volto. – Passei por
debaixo do seu braço e corri para a porta. Dava para ouvir seu sorriso.
Disparei escada abaixo e fui buscar as coisas na minha casa, com sorte ele não
estaria mais lá quando eu voltasse.